Aninha

Lá sentada estava eu: na cadeira da direita do lado direito de um ônibus; quando sentou-se do meu lado um estranho, simplesmente desconhecido. Não lembro de ter olhado para ele e infelizmente lembro de não ter olhado para trás para me certificar se havia ou não lugares vazios, outras opções para ele. Então veio à minha cabeça uma idéia, uma das bem estranhas. Naqueles momentos que passei com ele do meu lado eu não consegui conter a imaginação de que ele estava escutando os meus pensamentos, era primeira vez que isso acontecia. Lembrei que sempre penso em sexo, e sem saber se estava envergonhada por agora ele saber disso, comecei a relacionar qualquer coisa a isso, de formas besta e estranhas, de modos a que não estou acotumada. Pensava em tudo muito rápido, conversando "comigo" quase gritando, quase ofegante, como se houvesse algo porque me apressar. Vai ver tinha a intenção de expulsar tudo muito rápido, pensando que talvez não fosse compreensível ao vizinho de assento deste jeito. Não faz diferença para mim se ele me escutar, ele descobrir o que escondo não faz diferença, ele não faz parte da minha vida, e nem dos que fazem eu preciso esconder. Mas e a senha do banco? 5... 8790! O número no ônibus! 59... Não! HZO 7866! A placa daquele carro! Qual a diferença se ele souber? 5929. Nem sabe qual o meu banco... Lógico que "disse" a ele qual era o banco, mas quando cheguei a elas, as burocracias para alguma retirada de dinheiro, ou qualquer outra coisa, elas me tranquilizaram. Não sei como aconteceu, mas desviei o pensamento para um alguém que tem esse dom sobre mim (de desviar pensamento). Já não me sentia constrangida, entrei no clima do alguém. Depois disso eu já estava a pensar em qualquer coisa, sem esquecer do vizinho, mas sem lhe dispor importância. E quase assim mesmo o abandonei ao descer do ônibus. Quase (até agora) me esqueci da existência do rapaz. Foi interessante sentir aquilo, achar aquilo, tentar achar um porquê para aquilo. Neura. Insanidade. Não sei porque não pensei em me manter no anonimato, não pensei em meu nome. Também não olhei para trás ao levantar. Isso também é estranho.

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