rememoriando O caderno rosa de Lori Lamby para Rádio UFS


a menina Hilda Hilst
Estamos acostumados a uma visão sobre os pensamentos de uma criança, e nesta não se imagina pesares sobre sexo, ainda menos sobre a malícia do tesão ou entendimento do prazer do gozo. Importante lembrar nesse ponto que a inocência não é preservada com a ignorância, e a partir disso gostaria de falar sobre Lori Lamby e seu caderno rosa de anotações.
A verdade surpreende quando a inocência de uma criança leva a uma situação onde sexo permeia histórias infantis sem que falte coerência. Isso acontece quando Lori conta sua história estando cercada pelo círculo de amizades de seu pai, ele sendo um escritor que não consegue boas publicações. A literatura de seu pai, que nunca merece ser valorizada por não ser a bandalheira pela qual procuram os “anarfas” que compram livros, a envolve no universo literário, sempre com temática sexual muito presente. E nesse universo ela traz sua pureza, e a espalha por esse tema que é visto mascarado de tabu por tanta gente.
O caderno rosa de Lori Lamby lembra que há quem pense em Deus para achar que não deve pensar em sexo, e quem invente formas de enganar essa tensão sexual através de danças com garrafas e com isso inibir os pensamentos desconcertantes que causa nas pessoas.
Livro escrito por Hilda Hilst, como primeiro da Trilogia Erótica (os outros são Contos D'Escárnio/Textos Grotescos e Cartas de um Sedutor) e publicado em 1992. Esta autora muito consagrada pela crítica, e que aborda assuntos ditos controversos socialmente como homossexualidade e pedofilia.
Há um debate muito rico a ser puxado com base na história de Lori Lamby, já que a obra trás uma relação conflituosa que dentro da sociedade é mantida silenciosa, um problema invisível pela vontade de não ver. Afinal como lidar com nossas crianças quando o assunto sexo entra na história? A abertura de oportunidades para expandir esse tema seria um caminho de enfrentar a exploração sexual de crianças e adolescentes, e até uma forma alternativa de incentivar a abertura de diálogo com a violência contra mulher. Discutir sexo pode ser visto como política de segurança pública.
Porque não investir na qualidade da educação básica e incluir temas de sexualidade nesse aspecto da vida infantil? Uma forma de aproximar o tema com responsabilidade, informando, mas também compreender e respeitar as especificidades do entendimento de cada ser.
O caderno rosa de Lori Lamby é uma obra de valor artístico e social e está disponível virtualmente. Com uma linguagem acessível, salvo alguns termos sexualmente confusos, é uma boa sugestão de leitura.

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